quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ouvi dizer que é moda ser dj?




Assunto proibido para um suspeito Ser como eu e por si só ainda mais aliciante de abordar. Esmiuçar, rapinando  ao expressão aos Gatos, ou desenvolvendo melhor o tema :  esmigalhar, esboroar, retalhar, desmantelar, esquartejar ou pura e simplesmente… Opinar. O famoso e perigoso tema tem como título “ A Moda de Ser Dj”  ( e reparem nas letras maiúsculas que aqui não foram arrumadas ao acaso) e  fala de todos aqueles actores, apresentadores, modelos e afins que acodem  a sua vida profissional  já pouco dada a ovações….virando dj e trocando a bancada, o palco, a mesa ou a passerelle… pela cabine da discoteca. Portanto… de alguém como… a minha pessoa.

Quando se tem exposição pública, com ela acarreta-se não só a fama, as entradas à pala, os patrocínios, as festas exclusivas, os olhares derretidos e os espécimes do sexo oposto a dar graxa até mais não, mas também os olhares desconfiados, as invejas, as bruxarias e os maus olhados dos malogrados “ wanna be’s”, o descrédito dos pseudo-intelectuais e principalmente – e aqui entra o nosso tema – as desconfianças dos “ velhos do Restelo”, sim, aqueles para quem tudo o que é discrepante  das suas crenças de sempre lhes cheira a esturro. E pronto. Assim chegamos ao fulcro da questão. Porque raio é que uma pessoa não pode mudar de profissão ou até acrescentar outra às competências já adquiridas e mesmo assim poder, conseguir e ser bom profissional? Ser comunicador e bom comunicador é isso mesmo, ensaiar a vida  que ela é para isso mesmo, chegar ao público, com a Palavra, com o Gesto ou neste caso com a Música.. e  mais, importantíssimo: com a energia de um Palco – que muitos DJ’s “de origem” se esquecem de utilizar mesmo quando tecnicamente excelentes.

A questão é esta: E se por acaso, por uma qualquer vicissitude da vida, te aperceberes que tens jeito para mais do que uma coisa? E por acaso já és conhecido a essa altura do campeonato… Ai!! O medo, o terror!! O que fazer num país em que ao invés de te olharem como talentoso te tentam cortar as pernas a cada passo pioneiro que dás?? Desistir? No Way. E que venham os desafios que eles existem é para ser superados. E que venha a Música a acompanha-los que em toda a boa Vida que se preze uma boa banda sonora é requerida. 

Não posso falar pelos outros – 5 ou 6 ou 7, 8 ou 9 …- que têm aparecido a ocupar com mais ou menos mérito as cabines dos clubes, bares e discotecas do nosso país. Como em todas as profissões, há bons e maus, há sérios e charlatães ,há mestria e há  incompetência. Mas por mim falo, ou neste caso, tratando de Música o nosso tema, por mim, misturo os sons do vocábulo que sem palavras povoa actualmente a minha Vida e  confesso em tom de alegação final,  respirar melodia, trabalhar batidas, aprender  sôfrega  produção e  novas técnicas e tecnologias, desembolsar muito do que recebo nos “ milionários” cachês  em música, material , software e cursos. Ah, além de semanalmente fazer do público -que vou por aí alegremente descobrindo  nas esquinas do nosso país - cúmplice destas minhas descobertas constantes que considero mais constatações do que indagações. 

 Sentir os sorrisos no ar, enquanto exerço as minhas escolhas musicais, criar emoções, servir de tom ao 1º beijo ou apaziguar uma discussão com o volume dos decibéis, fazer a festa onde quer que passe! Sonhar com os temas novos que comprei no dia anterior e sentir que cada noite que passa os meus dedos acompanham cada vez mais os meus pensamentos e sabem exactamente o efeito a fazer, o timming da mistura, descobrem a tempo a  “ a capela” perfeita que os faz cantar comigo . Digam me se isto não é ser DJ o que é afinal?

E brilhar… sim, brilhar como só um DJ iluminado consegue fazer quando acerta no set perfeito e encontra assim a noite exemplar. Talvez aí possa concordar que os apresentadores, actores modelos e afins, que tanto são criticados gostam efectivamente de brilhar, porque assim cresceram na sua profissão “ de base” se assim lhe quisermos chamar. Mal – ou bem – habituados, a verdade é que a profissão de DJ acaba por lhes afagar o ego e lhes oferecer o seu público, as suas palmas, os seus créditos, por lhes dar o fogo que gostam de ver a arder. Tudo o precisam, para se sentirem como se tivessem bebido um batido energético, revigorados e entusiastas. E… que mal há nisso? Ser criador, comunicador, artista é isso mesmo. E é tão bom. Porque ter vergonha?

Enfim toda esta conversa para que entendam, que por vezes, para nós “ os tais” , os “ meninos bonitos e conhecidos” vingar nesta profissão pode até mais difícil do que para os outros.  Vingar á a palavra, não Aparecer, porque aí já a estória é outra e exista quem o faça ou não, é algo que nem me apraz comentar. Para os capazes e verdadeiros,  talvez se possa assegurar  já  um palco montado à nossa espera, sem o esforço de  o alcançar já que ele já nos recebe há anos e já nos aguarda de uma forma familiar. Mas, por outro lado os focos nunca apagam ,não  saem um minuto de cima, a exigência é muito maior e o tombo, que tanto torcem para que demos, a acontecer…. É sempre muito maior porque até aí há espectadores. E o tema vira sempre nacional e não só conversa na colectividade ou na rua dos amigos.

Toda esta conversa para vos dizer que para os 3, 4 , 5 ou 6 Djs- figuras públicas ( os sérios, que dos outros, em breve não rezará a História ) que querem um público não de moucos mas sim uma audiência com bom gosto, uma mão cheia de groovy party people e uma série de críticos do seu lado.. a vida não é de todo assim tão facilitada como tantos gostam de apregoar. E o maior gozo que podemos ter é,  quando no final de um gig, numa qualquer noite  de inspiração, um daqueles DJs “ à séria”, um senhor, um proffissional com anos de carreira e sabedoria, perícia e experiência vem ter connosco e diz : “ Miúda. Parabéns! ATÉ te estás a sair bem! “ E aí…  mesmo com um ATÉ à mistura, a Força volta a estar contigo e que se lixem os que à partida já tem um dedo apontado e uns tampões nos ouvidos…  só porque és a Rita da televisão.


Se ser Dj Virou moda? Moda  vira o que é bom, o que sabe bem e dá vontade de imitar . E asseguro vos que ser DJ é efectivamente Fenomenal!! E assim destes pequenos grandes nadas se faz a Lei da Vida.

Turn on the music!
Rita Mendes

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

3 dias e 3 noites

Ela chorava. Não parava de chorar. Três dias e três noites em que as lágrimas lhe faziam mais companhia do que alguma vez tinha tido. Chorava e ao sentir a humidade de sal escorregando pelas suas bochechas, correndo até à sua boca, ao seu pescoço e algumas até ao cós da sua camisola de gola alta, julgava-se submersa num banho quente de carícias. Ela assim o tinha escolhido. Gostava deste choro silencioso que a protegia da chuva do dia. Gostava de se sentir refém dos seus próprios sentimentos. Gostava que a sua tez ficasse vermelha de tanta dor expelida pelos poros.


No dia antes de ter começado esta maratona, Joana tinha dito no emprego que ia aproveitar o feriado para ir a casa dos primos, descansar no monte onde tinha brincado em pequena. Mas já sabia que não ia. Nem sequer tinha que lhes ter dado satisfações, mas só de pensar que alguém pudesse imaginar o que iria fazer, só lhe apetecia chorar ainda mais. Por isso, decidiu mentir a quem não tinha que dizer a verdade. E assim foi: na quinta feira, às 7 da tarde correu ainda até uma farmácia aberta e comprou pingos para o nariz e creme hidratante para a pele sensível. Sabia que a vermelhidão e a acidez lhe poriam a derme, a epiderme, até a carne e as veias secas, sem falar no estado em que deixaria a sua alma. A alma, essa, secaria mais tarde, iria sumindo de mansinho, de acordo com o volume de lágrimas que se soltariam dos seus sacos lacrimais. Mas sabia também que era a única forma...Preparou-se e soube que era agora ou nunca.


Há meses que quase explodia. Fingia ser dura, mas a verdade é que andava a pisar o risco. Muita emoção junta nunca tinha dado para aguentar de forma tão impávida e serena. Não dá para não deitar uma lágrima e depois esperar que corra tudo bem, que o controle tome conta de nós.. E ela sabia. Sabia, sem saber muito bem porquê que seria este o dia escolhido para começar. O dia da revolta interior, que apesar de a afligir, lhe apaziguava também o espírito e lhe dava sentido à vida. Sabia, porque quase tinha começado no mesmo dia à tarde, quando no trânsito lhe chamaram um nome:
"Irresponsável!!...", gritou um homem bem pronto e com um penteado da moda, num descapotável azul escuro. Irresponsável... Toda a tarde a maldade da palavra lhe tinha injustiçado o pensamento. Para ela, a Palavra era algo de sagrado, podia dar força mas podia igualmente espetar, podia esfaquear uma pessoa também...Pobre Joana, que desde logo se lhe tinham espelhado os olhos... Mas aguentou. Foi ainda forte e almoçou uma salada de frango, pensando na irresponsável que era em comer o coitado do bichinho e conseguiu superar ainda a irresponsabilidade, de em semana de dieta, lhe ter apetecido beber uma groselha cheia de açúcar. Mas aguentou.


Chegou a casa eram quase 8 e ele ainda não tinha aparecido. Enrolou-se numa colcha de lã cor de laranja e depois de ter aberto os estores deixou-se assim banhar pelo branco acinzentado de uma lua a caminho de cheia. Cheia de luz para lhe dar. E foi assim que começou. Imaginou-se, não só banhada pela luminosidade do astro, mas também pelo seu próprio choro. E começou. E soube-lhe bem.


Esperou que ele chegasse para o avisar. Explicou-lhe, soluçando uma estória atabalhoada que ele não percebeu. Falou em ultrapassar limites, em precisar de descarregar para só depois voltar a querer a energia da vida, em sentir a necessidade de estar sozinha, sem o estar na realidade afinal. Pediu-lhe um espaço que ele deu. Deu-o com a maior das facilidades, e ela, triste, chorou ainda mais. Acabou ele, afinal, por ir para o tal monte dos primos dela, num Alentejo próximo das memórias da cidade onde Joana ficou. A chorar.

Três dias e três noites em que não parou. De dia, no conforto da manta já molhada nos cantos enrodilhados nas suas pequenas mãos, de noite, chorava nos seus sonhos. E aí, nem mesmo os olhos fechados, a impediam de oferecer aos lençóis as gotas terapêuticas do seu triste cansaço.


Três dias e três noites. E ele que não ligou. A Joana tinha-lho pedido e ele fez-lhe a vontade. Também por isso ela chorou. Chorou tanto até já não ter mais lágrimas. E elas foram mais do que alguma vez se julgou ser humanamente possível verter. Mais de mil. Talvez 3 mil, mil por dia. Ou até o dobro, nunca se chegou a saber. O sofrimento foi tal, tão compulsivo, desesperado, que se cansou ele também.
Finalmente.

A Joana, na noite de domingo, fartou-se de estar cansada, de chorar e de sofrer. Passou ainda um noite molhada em si mesma, mas quando acordou, na 2º feira, com ele, já deitado ao seu lado, levantou-se sorridente, correu a lavar a cara e os dentes, colocou uma camada de creme hidratante e foi trabalhar como se nada se tivesse passado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

As mãos do mundo


Tenho-me nas Mãos do mundo. E gostava que ele fizesse a sesta na minha mão. Quero com tanta determinação conhecer-lhe os sonhos que imagino prendê-lo assim para nele ter tempo de viajar e o compreender melhor. Só o quero guardar uns instantes.. De mãos fechadas e bem juntas ao coração.

As minhas Mãos que são pequenas, curtinhas e esguias, como toda eu, (acho)… são proporcionais a mim mesma e proporcionastes dos melhores e inesquecíveis momentos da minha vida. São elas que me permitem fazer quase tudo o que mais amo. São um incontornável objecto vivo de trabalho e lazer. Os afazeres das minhas mãos, acabam normalmente, por contribuir para o deleite e para o ócio da minha alma. Enumero-os com um semblante de consolação e felicidade:

O acto de fazer festas, de dar mimos, de fazer massagens. Suspiro de tanto gostar. Amassar, tocar, curar o corpo e o espírito de alguém com a palma da mão aberta, com a pressão dos nós dos dedos ou com as unhas a passar pela pele bem ao de leve… Arrepiar, aliviar, transmitir energia através das Mãos. Sabe bem aos outros e especialmente a mim. Assim lhes posso oferecer Amor através do toque.

Gosto de dar te banho filho Luz, de te passar creminho, de te cortar, a ti, as mini unhas, ouvindo-te reclamar. Os teus dedinhos nos meus, a tua macieza inocente na minha suavidade de adulta. Os nossos indicadores quando se tocam em forma de ET e brincam à apanhada...

Escrevo com as minhas Mãos, ao computador de dedos espetados e com pequenas pancadas fortes, na folha de papel do bloco de notas com letras redondas e rasuradas ao sabor da inspiração. Pinto com elas. A minha tez e as minhas telas. E invento mil e uma maneiras de as empregar nos imensos brique-a-braques e peças de roupa alteradas que vou arrumando e exibindo lá por casa.

Adoro cozinhados de Mão cheia. Prezo a Mão aberta e envolta nos alimentos e especiarias. Ligo o sabor da terra ao sabor da palma e do afecto ao punhado que uso como medida.. Gosto de lhes sentir a textura e é através das mãos que lhes deposito o amor necessário ao sabor de um bom prato.

Gosto de sentir os meus dedos a controlar na mesa de mistura. Na textura do vinyl e na lisura do cd . Tocar ao de leve no botão do pitch, respirar a vibração que ecoa na sala e sentir como faz a diferença a susceptibilidade de um toque… A partilha da música que me faz sorrir de orelha a orelha. E sentir. E chorar. E dançar de olhos fechados… A mistura entre a sensibilidade musical, a prestação técnica e a vontade cabriolesca das minhas Mãos miudinhas, irrequietas e sensitivas.

Ah, gosto das minhas unhas… De as tratar e de as ver reluzentes e bem pintadas.. Coisas de mulher… A minha mania de as arranjar é tal que cria já brincadeira entre amigos e os vernizes amontoam-se em 4 caixas arrumadas na casa de banho. Quando as roía, em pequena não lhes tinha respeito mas agora, agora… são a minha perdição e prazer.

Dar-te a Mão e agarrar com o dedo mindinho o teu dedo mindinho. Fazer o pino. Lavar o cabelo em água tépida. Convosco. Mexer no barro e na areia molhada. O morno da tua pele. Jogar à sardinha e entrelaçar ao mesmo tempo e compassadamente dedos da mão direita e esquerda quando estou nervosa.Festinhas na tua nuca de bébé. Aperto, envolvo, ancoro e agarro-me a ti. Guardo com vocês, o carinho e o respeito. Afago e também afasto. Gosto de vos ter macias Mãos. A vossa pele e a vossa essência. Vou fazendo por isso… Gosto de vocês porque me dão que fazer. Gosto de vocês porque são a terminação nervosa do meu corpo e do meu sentir.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Até Logo.. ou a Morte tentada em palavras


Quando uma vida acaba todas as outras continuam. Por mais feitos que tenhas feito, por melhor ou pior que tenhas vivido, por mais ou menos amigos que tenhas deixado do lado de cá, todos eles, os teus momentos, parecem esquecidos no instante pontual do Adeus. Sim, porque, cada vez mais acredito que a morte tem hora marcada e não tolera qualquer tipo de atrasos. Revoltante mas incontestável.

Choraste, riste-te, fizeste e educaste filhos, netos, deste a mão a amigos e contorceste-te durante anos em duras lutas contigo mesmo e com o Mundo. E o que é que ele te oferece no final de tudo? Qual a moeda de troca da tua dádiva para com ele? O terminus dos teus dias. Em silêncio. Contigo mesmo e com mais ninguém. Mesmo que com muita gente à volta...Um sem fim de Fim que se abre à tua frente como um portão trancado com 7 voltas ao teu passar. A incógnita do Porquê. O surreal do chegar finalmente à única certeza da Vida: a própria Morte.

Mesmo que aches que fugiste à mediocridade dos dias, irás acabar como todos os outros. Frio. Quieto. Imóvel. Inerte. Inestimado. Sobrevalorizado. Porque nunca ninguém foi tu. Só tu. E tu estás a ir embora. E mesmo que nunca tenhas acreditado nisso, agora sabes que afinal somos todos iguais. “ O pó ao pó retorna”. E o teu pó está tão próximo de ser a tua Verdade...

Vezes demais tento fazer o exercício... Saber que ela está aí, ao meu lado. Que não se vai embora e que se torna uma certeza morbidamente sincera por não nos mentir nunca na sua intenção. Aqui e agora. Morro.Vou-me embora. Acabo de vez a jornada. Cedo, sem saber como nem porquê, um lugar não cativo ao outro que se segue na fila. Ele que salte para o carrossel em andamento. Sem ajudas e com muito cuidado para não cair que eu já estou em rota descendente e conheço o pânico da queda sem rede...

Saber que se vai, que se está a morrer. Que nos estamos a apagar da face da terra como uma mão cheia de café moido que vai sendo sugado pela água quente impregnada na boca da máquina de café. Pouco a pouco. Saber que a vida vai sendo coada, até deixar de existir, até só sobrar o borrão escuro e sujo do que um dia já fomos em vida. O borrão a que chamamos Memória.

Fazer as pazes connosco mesmos. Perdoar. Controlar o medo. O escuro. A ausência. A Tua ausência, a do cheiro, a das cores, a da luz e do vento a bater na tua testa e a do sol a bronzear-te ainda mais a pele já escura. A minha própria ausência. Questiono-me ainda até que ponto a Coragem e a Calma se tornam, nesse momento decisivo as qualidades mais importante do Ser. Sei que vou deixar de existir. Aceito a minha Não-condição. Adeus. Não luto mais. Deixo-te Vida, deixo-te para oferecer o meu lugar..

Por agora, dou por mim a sugar lembranças ao meu coração.É isso também a Morte.  Gestos de carinho, palavras e olhares que me ofereceste, palavras que não te disse, chamadas que adiei. 

Sei-te corajoso de alma e fraco de corpo, porque esse, ao abandonar-te só te está a fortalecer a vontade e a apaziguar o espírito. Sinto-te no desamparo de uma Certeza que já foi para ti tão longínqua quanto a minha o é hoje em dia. Sem saber para onde voas, e sem teres feito um check up geral ao teu kit de viagem... não tens qualquer garantia de que não irás queimar as asas e terminar em queda livre estatelando-te no chão.

Em que é que acreditas afinal? Em que acreditamos todos quando a nossa hora chega finalmente? Morrer em paz seria a melhor opção. Deixar os olhos fecharem mas não a esperança e a sensação de missão cumprida. Tu que a cumpriste , na tua vida simples e repleta de afectos. Tu que a viveste e que te estás a deparar com a mais assustadora experiência da tua ainda Vida. Tu que ao veres chegar a Morte decidiste ficar em silêncio, quando o silêncio era o teu maior inimigo.

Não te julgo. Tento ficar no teu lugar e sentir o teu pulsar.A ti,a quem tenho um único pedido a fazer antes de ires: Deixa-te levar pelo vento sem teres medo de onde ele te vai levar. Vai sem sofrimento muito, por favor.. Vai com a certeza de que o Amor e a Memória te farão para sempre Eterno. Tenta fazer como eu que comecei este texto com uma visão pessimista e que ao correr das letras e ao desencadear das ideias libertei o meu coração revoltado e lhe permiti que passasse a acreditar na Eternidade da permanência de uma vida pela sua memória. Na tua eternidade.

O Tempo que deixa agora de ser Tempo para ti, será para nós o Tempo que te oferecemos dentro dos nossos corações. Infinito. Sabes?, é que mesmo partindo assim pelas mãos da inevitabilidade, nunca irás partir da alma de quem te ama.

Então até logo , que Adeus nunca se diz... lembras-te?

|RIP António Cunha ...|

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

o Futuro do Futuro. Com o coração ainda no peito..


 Janeiro.. Frio como a pedra do rio..  A bela da frente fria de ar polar que nos está a atacar agora a  meados deste mês põe me os dedos gelados enquanto teclo e tacteio os meus próprios  lábios como sempre  faço para alcançar uma melhor concentração.  Lá fora , já escuro como breu  por ser já quase meia noite de um Inverno rigoroso, “à antiga”. Sento-me frente ao meu lap top cor de rosa, toda eu inspiração e renovação, toda eu  tentativa estranha mas sincera de sorrisos, pronta e disposta a escrever acerca do Ano Novo que agora entrou. Tento reunir memórias do ano velho, jurar em sussurro novas resoluções: 
Quero ser feliz, boazinha, saudável entre dietas e exercícios físicos e espirituais. Vou ajudar quem merece e ignorar o que me faz mal de forma a conseguir seguir em frente sempre com um sorriso. Irei juntar dinheiro para conseguir colocar em prática os meus sonhos e fazer arrumações na casa da Linha, arranjar o quintal e transformá-lo em jardim e arrecadar  tudo direitinho e livre de sujeiras no sótão da minha cabeça. Apostar forte na minha carreira, ser afortunada no Amor, dar uma vida divertida e reacheada de bons momentos ao meu filhote menino e….. e….. a minha crónica chegaria assim ao fim, toda atabalhoada de palavras politica e sentimentalmente correctas e decisões todas pipis, as que todos, com uma percentagem   de maior ou menor  altruísmo, aspiramos nestes primeiros dias do ano ou pelo menos, enquanto vestimos a bela da cueca azul bébé a convocar a Boa Sorte.
Por isso ao tentar ser original e especulativa, que é bem mais giro e singular, proponho aqui o exercício mental de tentar saltar uns anos e em vez de pensar nos inícios de Janeiro como marco de transformação , abordar os anos vindouros como uma agenda em aberto cheia de sublinhados, sugestões, adivinhações e vontades .
Por exemplo, saltemos 5 , 10 ou até 15 anos. A que tendências nos andaremos a submeter? “O que raio ainda há para inventar?” ( uma das minhas frases ícone preferida dos nossos avós ). Tento imaginar o som com o qual iremos dançar ou até os ídolos que iremos respeitar. Sujeito a imaginação à existência do TGV, aos casamentos homossexuais ( ui que festões que vêm aí ), ao aeroporto na margem Sul, às mudanças no paradigma das energias. Na minha área… mais “dj’s” que público dançante, mais “actores” do que assistência, mais “ modelos” que gente feia: “porque todos têm uma beleza particular” .
Imagino me a mim  já com uns pezitos de galinha, traquinas de expressão, mas finalmente tranquila de certezas .A produzir música electrónica misturada com sonoridades portuguesas e a fazer dela o meu cartão de visita. Directamente do meu estúdio entre o Azul e o Verde. No meio de um silêncio cortado Só quando eu quiser. Longe do rebuliço a que me habituei durante tantos anos a fio. Esse só existirá na minha cabeça, quando o som borbulhar no meio dos phones ou quando as gargalhadas dos amigos rasgarem a imaginação. Enquanto me dedico à horta de ervas aromáticas, à palavras escritas e sonhadas do meu blog em crescimento vou cozinhando o futuro com muita melodia à mistura, e sorrindo ao pensar nos ensinamentos do passado. Uns choros e risadas de crianças  fundidos com o glamour do salto agulha no dia de festa ( que será cada vez mais pontual) e as palavras mais certas que nunca a fluírem para o papel como eu sempre desejei. 
A paz possível... Mantendo o coração no sítio, sem ter que trazer a frieza ao lume da vida para me tornar vencedora. É o que tantos fazem. Deixar de sentir. Para não sofrer, para não ver, para fugir a si mesmos, para ser o que outros querem, para passar por cima sem sentir remorso ou desconsideração. O coração no sítio, quero mantê-lo. Sem ser arrancado aos sonhos e desejos de mim mesma.Coração sem ser peso. Encontrar nele o tranquilo embalar do meu ser interior... E o resto é o que os outros verão. E escolherão dizer de mim... Que o seja...
No meio de tudo isto, o que quero então para o inicio deste próximo ano? Pensando e repensando questões, só me apraz exigir do Mundo e de mim mesma ,a compreensão necessária para abraçar o que vier, porque basicamente, irá ser essa a realidade que me fará chegar onde quero. Conseguir sobreviver aos que, me afectam por fora tentando chegar cá dentro... Lutar para que um dia não precise mais de fazê-lo. Limpar a cabeça e o alimentar bem o coração, o tal que não pode mirrar apesar de os problemas o quererem roubar aos bocadinhos ... sentindo  que faço e dou o meu melhor em tudo, mesmo que os outros não o percebam. 


E mesmo que por caminhos nunca pensados, alguns esburacados e sombrios e outros tantos por onde me vou perder… caminhar sempre no meio dos medos que se tornam ensinamentos...até me encontrar de novo. 


Encontremo-nos nós por aí nos caminhos desse ano mítico. 2012. O ano das renovações e mudanças...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

GOOD OLD DAYS…




Ainda me lembro quando a palavra VIP fazia estremecer até os que o eram realmente e andavam no meio dos ricos, bonitos, famosos e party lovers. Era efectivamente bom e recomendava-se. Estremecíamos de entusiasmo ao pensar em mais uma festa, uma noitada, uma rambóia à antiga. E quase sem regras. Isso sim era ser VIP. Saudades… ui ui.. Ainda me lembro quando ser VIP dava acesso ao mais privado dos privados, às passadeiras vermelhas  , que eram poucas mas esplendorosas, limpinhas, sem remendos e borbotos e melhor ainda, davam carta branca às portas das traseiras, aos escritórios, corredores e às catacumbas dos bares e discotecas. Ainda me lembro quando ser VIP, era um misto de glamour despreconceituoso e… baldas chique. Dá para entender? Era entrar onde se queria, à hora que se queria. Era beber a noite toda sem a preocupação de ser apanhado pelo fotógrafo, pela brigada de trânsito ou de ter as orelhas ( e não só…) puxadas por ter perdido o cartão de consumo no calor da noite… E já que falamos em cartões, era enche-lo até cair ( o cartão claro…), não pagar e ainda ir buscar mais um ou dois. 
Podem me chamar saudosista, exigente, nostálgica ou até carcaça velha mas a verdade é que até a bela da sigla ( VIP) e principalmente ao que a ela se relaciona hoje em dia, parece me ser de um  mundo bem distante e diferente d que acabei de descrever. Hoje em vez de 100 “vips” existem 100.000, não existe exclusividade nem dificuldade em “sê-lo” e muitas vezes basta parecê-lo em vez de usufruir do que esse patamar poderia efectivamente oferecer ao verdadeiro lazer da saída à noite. Hoje , basta ter uma pulseirita florescente e ranhosa agarrada ao pulso e é ver toda  a pandilha  a gritar à porta: “ deixem me entar! Estou na lista VIP!!”. VIP que é VIP se quer gritar, grita dentro da cabine, junto ao dj, grita dentro do bar enquanto serve shots aos amigos ou grita piropos e alarvidades sem ninguém lhe tocar. Porque é amigo dos seguranças e do dono da discoteca e além disso tudo o que fica mal aos outros… nos ditos, toda a gente acaba por achar irreverente em vez de parvo e engraçadinho ao invés de irritante!
 Com ou sem foto, que essa só é gira se tirada sem estarmos à espera… Bring me back the GOOD OLD VIP DAYS and IM IN!!! Assim não… Prefiro ser VIP no sofá da minha casa…


Ser VIP era ser especial, único, um dos ícones da festa, ser mais do que bem vindo… ser um dos poucos “eleitos”. Era ter que escolher os eventos de agenda em punho, coordenando guest lists e escolhendo os  acontecimentos mais divertidos. Nunca jamais moeda de troca como há pouco me fizeram: “ Dou te um convite VIP mas só se apareceres na festa de apresentação do evento porque está lá a imprensa e precisamos das fotografias…” Ai meu deus, que me caiu tudo. O que tenho e o que não tenho. O que nunca tive e o que ei um dia de ter…. Até a Santa Ingrácia, padroeira de todas as festas ficou de boca à banda. É que, “ antigamente” uma das regras do ser, parecer ou ambicionar ser VIP passava pela discrição, ou se quiserem ser mais directos…. Do saber dar a volta… Sim, porque mesmo que os VIPS também sirvam para promover o que quer que seja, fazer publicidade e servir de chamariz “ aos meros mortais”….  Há que saber que os VIPS só mostrarão a sua raça e essência enquanto se sentirem exclusivos, imprescindíveis e indispensáveis.