terça-feira, 27 de março de 2012

Assim


Assim é a palavra que melhor define como eu me sinto, quem sou. Porque a forma com o sinto é  estúpida e simplesmente Assim. É esta, e por mais que o tente explicar por palavras, só eu sei o que Assim quer dizer.

E isto é Assim ...

Porque Assim o é, sem mais nem menos. Porque o meu Assim é, diferente dos dos outros. É único, é pessoal e intransmissível. É assim que eu sinto no meu peito, no meu coração, na minha dor, medo e incerteza e é assim que o sei definir através da indefinição.

Assim torna-se uma Palavra Grande, grande em significado, grande em número de batidas cardíacas, grande em importância e sensações.

Assim me encho de Amor, de saudade, de medo, de tristeza. Assim combato o que não gosto, o que me apoquenta, o que me incomoda e diminui. Assim, como só eu o sei fazer, e por vezes nem sequer o faço como deve de ser.

Assim vai passando a vida, como só eu a sei. Assim vejo o mundo inteiro e o cheiro à minha maneira. Assim assisto ao que quero e ao que não quero. 
Assim, deixa de ser palavra. Passa a frase, expressão texto ou livro inteiro. Passa a filosofia de vida, A comando do meu ser.
 É Assim que exorcizo fantasmas e é Assim que arranjo forças para lutar. Todos os dias. 
É Assim que me tenho a mim própria. Desta forma que mais ninguém sabe ou conhece.

Pois... É Assim ! Fugindo do meu  verdadeiro caminho e encontrando outro que se calhar também acaba por ser meu porque Assim o tinha que ser... 

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Ponte ou a Mais Curta História de Amor do Mundo


A história começa num vale. O vale onde tudo foi criado. As flores e os frutos nasceram da água do riacho, que nasceu do vão da terra esculpido pelas mãos do Poder do Mundo. As hortas nasceram do suor dos lavradores e da chuva que caia nas estações. As casas nasceram do conforto desejado dos bandos . As famílias nasceram da procriação. A comida nasceu pela necessidade de sobrevivência que foi entendida pela inteligência. Que chegou aos poucos… Tudo era possível naquele vale até chegar o amor.

O Amor nasceu também nesta história. Foi assim tudo começou. E acabou. Porque foi a mais curta história de amor do mundo.

O riacho estava a jorrar a água dos dias da cheia e os homens drenavam a transparência em direcção ao campo. Ela seria essencial nos dias de seca. “Temos que equacionar o futuro. Ser previdentes e espertos. A natureza não nos ludibriará!...”.


Ele tinha as mãos encardidas e sabia do futuro. O que queria era só com ele, mas sabia como lá chegar. O rio não tinha uma só margem e ele sabia que havia de o atravessar. Escoava o líquido misturado com a terra para o seu lado direito. Nunca para o esquerdo porque era muito coerente e organizadamente metódico. Pensava no amanhã, tirava só o bom partido do ontem. Apesar do vale estar no seu coração não queria criar raízes. Chamava-se Ambição.

Começou a chuvada. Grossos pingos inundaram ainda mais os caminhos e destruíram o trabalho de dias dos homens empenhados em salvar a sua pequena nação. As mulheres queriam o trigo para fazer o pão e os homens tinham que lhes oferecer a condição.

Confusão maior não podia. Até em auxílio as mulheres vieram. Vieram muitas. À chuva, encharcadas nas suas vestes, mas arrebatadas pela agitação.

Uma delas era Ela. Sem dúvida. Era Ela. Aquela que o fez perder o olhar enquanto a sua mão esquerda se prendeu no chão tentando puxar um torrão. Coração. Ela Ajoelhou-se, então, ao seu lado e começou a ajudar. Os pingos gordos escorriam pela sua face e ele tremeu como vara verde ao vento ligeiro.


“ Pára… Pára com o que me estás a fazer, mesmo sem eu saber o que é…”. Amou-a. Amou-a tanto que sorriu e chorou num só instante. Gostou da sua pele, do seu cheiro a palha molhada. Gostou do seu olhar e da sua voz quando ela disse: “ Fico?” Ela queria saber se era ainda tempo de o continuar a ajudar. Haviam passado algumas horas e as outras mulheres tinham já abandonado o ribeiro. E ele tremeu. “Quero-te aqui comigo” pensou. Mas disse : “ sim, podes ir. Não tens que ficar mais. Vai descansar.”

A chuva parou. Ainda encharcada ela beijo-lhe a testa e olhou-o na alma.” Sim, é melhor que eu vá, mesmo que não perceba porquê.” Levantou-se, examinou a nódoa negra do joelho e caminhou em direcção à aldeia.

Já de longe, e ele que não sabia ainda nada de nada antes da bátega de água, acreditou que havia perdido o Amor. Mas havia ganho a liberdade, essa era a outra incómoda e séria certeza. E agora, que a via ao caminhar para a sua casa, para a sua vida de sempre, em direcção aos seus sonhos simples e ao seu dia a dia normal, ele sabia que tinha que alcançar o outro lado do rio e fugir do que o assustava. Custasse o que custasse. Tinha que escolher a outra vida e alcançar o desconhecido. Perdera o que nunca tinha tido e sabia-o.

Levantou-se e passado um ano, na estação seguinte tinha construído uma ponte! A primeira de todas. Foi ele o primeiro a rumar. Partiu de memórias às costas e ainda a viu, a ela, nesse mesmo dia, a lavar a roupa na beira enlameada de um dos caminhos que conduziam ao fim da aldeia. Dirigiu-se a ela, abraçou-a e triste disse: “ És muito difícil… Vê-se nos teus olhos… A tua intensidade apoquenta-me”. Ela deixou cair uma lágrima de açúcar que ele guardou para o caminho. E assim, com esta doçura silenciosa tudo acabou sem nunca ter começado.

O caminho ambicioso mostrou-se lá à frente, a incerteza do Amor ficou para trás. E foi neste vale, que tudo criou e que tudo esqueceu, que apesar de tudo, o Amor acabou por ver nascer as bases da sua fundação.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A gente só leva da vida a vida que a gente leva



Todos os dias ao acordar uma nova luta começa. Várias camadas de lutas , rectifico.. A luta contra o sono. 
Depois contra a preguiça. A luta contra a loiça suja do pequeno almoço . Depois a luta contra o trânsito, os apitões, os refilões do passar dos dias que se passeiam carrancudos sem sequer conhecer o significado de um verdadeiro passeio…A luta da contagem dos trocos sempre em falta por uns cêntimos para o parquímetro da esquina perto do restaurante onde vamos almoçar e a luta contra a ansiedade da espera enquanto ele ou ela não chegam e ainda não entendemos bem se levámos ou não uma tampa.

Como se ainda não chegasse, a camada aglomera-se com uma catrefada de colegas que nos tentam fazer a folha, com os sentimentos de frustração… porque afinal ser farmacêutico, contabilista, empregado de escritório ou de um qualquer estabelecimento não condizem com os nossos sonhos e até os que têm a sorte de trabalhar na área que escolheram, cedo percebem que a vida dos seus sonhos estava afinal, na hipótese B, que era aquela mesmo ao lado da A, a que acabaram por escolher…

 A Luta  contra o copo de água que acaba. Quando a sede ainda lá está. De líquido e de vida. E o copo sem gota.  A Luta contra o telefone que não pára de tocar e para ter uma voz que condiga com o som do sorriso, mesmo que forçado, para não parecer antipático.  A Luta contra o próprio corpo. Para não engordar, emperrar ou adoecer. Ele que é matreiro e está à espera de nos fazer sofrer qualquer dor ou incomodo menos esperado.  A Luta para ficar bonito, resplandecente, mesmo que por dentro a luz seja pouca e a alma esteja mais na penumbra do que a brilhar de claridade.

 A Luta para escrever. Que limpa a alma.  A Luta para exercitar a mente,  a de nos obrigar a ter paciência para ouvir alto e bom som a nossa música. É que às vezes esquecemos que isso é bom e imprescindível…Limpar as teias de aranha do intelecto com um bom livro ou dedicar-nos a uma qualquer arte, nem que seja decorativa e de segunda… Uma luta que pode vir a dar tréguas. Esta sim , por fazer bem.  A Luta para manter a sensibilidade num mundo que a suga a cada passo que damos. Luta para continuar a sonhar.
A luta ainda por amigos. Pela família.  A Luta para não esquecer os que já partiram, mantê- los presentes em histórias e pensamentos. Lutar  com eles e não contra eles.  E a luta pela vontade de Dar. Ter bondade, dignidade. Lutar para ajudar na saudade que temos de alguém que já não vem…

Mas a luta continua. Sempre. Luta se para Amar e também para ser Amado. Para não ser esquecido no meio de tantas lutas, seres humanos, problemas, notas de 50 euros e notas de supermercado, agendas por cumprir e sensações a descobrir e a aproveitar. A luta para ter uma Vida, um filho, um tesouro, um objectivo traçado ou a traçar. A luta para ser bom no que fazes e não te desiludires a ti e aos outros.

E é assim que vivemos todos os  dias. Assim de repente parece pesado, mas repensando o assunto, parece me bem que é precisamente esta Luta que não nos deixa dormir à sombra sem pensar que o dia de amanhã está única e exclusivamente nas nossas mãos. Ou se vai à luta… ou se é deixado a bezerrar.  E de bezerros está cada vez mais este mundo cheio. Qualquer dia não existem pastos para eles e alguns já andam mesmo entre nós.. Cuidado!


...A gente só leva da vida a vida que a gente leva ...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Nada demais... se não fosses tu...



Nada demais se não fosses tu.
Que me dás a luz ao olhar,
Que me ofereces fogo no coração.
Que sabes com que lente me usar.

Nada demais se o vento não falasse
E me sussurrasse a certeza do amor.
Que se entranhou até ao fim do inicio da alma.

Nada demais sem a nossa certeza.
Nada demais sem as nossas mãos.
E o respirar. E transpirar. E moldar. E acertar depois de desacertar.
 

Nada demais se os Minutos não fossem Horas.
Nem a distância ainda mais longe quando não estás aqui.
Nem o sabor se tornasse amargo por não beber de ti os teus beijos.

Nada demais se o futuro não fosse hoje.
Que o é, que se faz a cada dádiva.
A cada palavra.
A cada beat de som. a cada nota criada por ambos.

Nada demais se não fosses macio,
Por dentro e por fora. Suave e áspero como a areia do deserto.

Nada demais se a minha Alma ainda coubesse em mim. Que não cabe. E foge para se colar à tua pele. Até ao fim dos tempos. Até ao Fim das horas. Até ao fim da ternura dos Dias... que não vão ter fim Nunca.

Nada demais, se não fosse demais.
E é tanto assim, que o próprio mais,
Se torna de menos para dois seres
Assim como nós....

Tudo demais ... que é tão pouco perto de nós !!
Nada nem ninguém... tu eu, umas quantas lágrimas e um sem fim de sorrisos, gargalhadas e massagens nos pés. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ouvi dizer que é moda ser dj?




Assunto proibido para um suspeito Ser como eu e por si só ainda mais aliciante de abordar. Esmiuçar, rapinando  ao expressão aos Gatos, ou desenvolvendo melhor o tema :  esmigalhar, esboroar, retalhar, desmantelar, esquartejar ou pura e simplesmente… Opinar. O famoso e perigoso tema tem como título “ A Moda de Ser Dj”  ( e reparem nas letras maiúsculas que aqui não foram arrumadas ao acaso) e  fala de todos aqueles actores, apresentadores, modelos e afins que acodem  a sua vida profissional  já pouco dada a ovações….virando dj e trocando a bancada, o palco, a mesa ou a passerelle… pela cabine da discoteca. Portanto… de alguém como… a minha pessoa.

Quando se tem exposição pública, com ela acarreta-se não só a fama, as entradas à pala, os patrocínios, as festas exclusivas, os olhares derretidos e os espécimes do sexo oposto a dar graxa até mais não, mas também os olhares desconfiados, as invejas, as bruxarias e os maus olhados dos malogrados “ wanna be’s”, o descrédito dos pseudo-intelectuais e principalmente – e aqui entra o nosso tema – as desconfianças dos “ velhos do Restelo”, sim, aqueles para quem tudo o que é discrepante  das suas crenças de sempre lhes cheira a esturro. E pronto. Assim chegamos ao fulcro da questão. Porque raio é que uma pessoa não pode mudar de profissão ou até acrescentar outra às competências já adquiridas e mesmo assim poder, conseguir e ser bom profissional? Ser comunicador e bom comunicador é isso mesmo, ensaiar a vida  que ela é para isso mesmo, chegar ao público, com a Palavra, com o Gesto ou neste caso com a Música.. e  mais, importantíssimo: com a energia de um Palco – que muitos DJ’s “de origem” se esquecem de utilizar mesmo quando tecnicamente excelentes.

A questão é esta: E se por acaso, por uma qualquer vicissitude da vida, te aperceberes que tens jeito para mais do que uma coisa? E por acaso já és conhecido a essa altura do campeonato… Ai!! O medo, o terror!! O que fazer num país em que ao invés de te olharem como talentoso te tentam cortar as pernas a cada passo pioneiro que dás?? Desistir? No Way. E que venham os desafios que eles existem é para ser superados. E que venha a Música a acompanha-los que em toda a boa Vida que se preze uma boa banda sonora é requerida. 

Não posso falar pelos outros – 5 ou 6 ou 7, 8 ou 9 …- que têm aparecido a ocupar com mais ou menos mérito as cabines dos clubes, bares e discotecas do nosso país. Como em todas as profissões, há bons e maus, há sérios e charlatães ,há mestria e há  incompetência. Mas por mim falo, ou neste caso, tratando de Música o nosso tema, por mim, misturo os sons do vocábulo que sem palavras povoa actualmente a minha Vida e  confesso em tom de alegação final,  respirar melodia, trabalhar batidas, aprender  sôfrega  produção e  novas técnicas e tecnologias, desembolsar muito do que recebo nos “ milionários” cachês  em música, material , software e cursos. Ah, além de semanalmente fazer do público -que vou por aí alegremente descobrindo  nas esquinas do nosso país - cúmplice destas minhas descobertas constantes que considero mais constatações do que indagações. 

 Sentir os sorrisos no ar, enquanto exerço as minhas escolhas musicais, criar emoções, servir de tom ao 1º beijo ou apaziguar uma discussão com o volume dos decibéis, fazer a festa onde quer que passe! Sonhar com os temas novos que comprei no dia anterior e sentir que cada noite que passa os meus dedos acompanham cada vez mais os meus pensamentos e sabem exactamente o efeito a fazer, o timming da mistura, descobrem a tempo a  “ a capela” perfeita que os faz cantar comigo . Digam me se isto não é ser DJ o que é afinal?

E brilhar… sim, brilhar como só um DJ iluminado consegue fazer quando acerta no set perfeito e encontra assim a noite exemplar. Talvez aí possa concordar que os apresentadores, actores modelos e afins, que tanto são criticados gostam efectivamente de brilhar, porque assim cresceram na sua profissão “ de base” se assim lhe quisermos chamar. Mal – ou bem – habituados, a verdade é que a profissão de DJ acaba por lhes afagar o ego e lhes oferecer o seu público, as suas palmas, os seus créditos, por lhes dar o fogo que gostam de ver a arder. Tudo o precisam, para se sentirem como se tivessem bebido um batido energético, revigorados e entusiastas. E… que mal há nisso? Ser criador, comunicador, artista é isso mesmo. E é tão bom. Porque ter vergonha?

Enfim toda esta conversa para que entendam, que por vezes, para nós “ os tais” , os “ meninos bonitos e conhecidos” vingar nesta profissão pode até mais difícil do que para os outros.  Vingar á a palavra, não Aparecer, porque aí já a estória é outra e exista quem o faça ou não, é algo que nem me apraz comentar. Para os capazes e verdadeiros,  talvez se possa assegurar  já  um palco montado à nossa espera, sem o esforço de  o alcançar já que ele já nos recebe há anos e já nos aguarda de uma forma familiar. Mas, por outro lado os focos nunca apagam ,não  saem um minuto de cima, a exigência é muito maior e o tombo, que tanto torcem para que demos, a acontecer…. É sempre muito maior porque até aí há espectadores. E o tema vira sempre nacional e não só conversa na colectividade ou na rua dos amigos.

Toda esta conversa para vos dizer que para os 3, 4 , 5 ou 6 Djs- figuras públicas ( os sérios, que dos outros, em breve não rezará a História ) que querem um público não de moucos mas sim uma audiência com bom gosto, uma mão cheia de groovy party people e uma série de críticos do seu lado.. a vida não é de todo assim tão facilitada como tantos gostam de apregoar. E o maior gozo que podemos ter é,  quando no final de um gig, numa qualquer noite  de inspiração, um daqueles DJs “ à séria”, um senhor, um proffissional com anos de carreira e sabedoria, perícia e experiência vem ter connosco e diz : “ Miúda. Parabéns! ATÉ te estás a sair bem! “ E aí…  mesmo com um ATÉ à mistura, a Força volta a estar contigo e que se lixem os que à partida já tem um dedo apontado e uns tampões nos ouvidos…  só porque és a Rita da televisão.


Se ser Dj Virou moda? Moda  vira o que é bom, o que sabe bem e dá vontade de imitar . E asseguro vos que ser DJ é efectivamente Fenomenal!! E assim destes pequenos grandes nadas se faz a Lei da Vida.

Turn on the music!
Rita Mendes

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

3 dias e 3 noites

Ela chorava. Não parava de chorar. Três dias e três noites em que as lágrimas lhe faziam mais companhia do que alguma vez tinha tido. Chorava e ao sentir a humidade de sal escorregando pelas suas bochechas, correndo até à sua boca, ao seu pescoço e algumas até ao cós da sua camisola de gola alta, julgava-se submersa num banho quente de carícias. Ela assim o tinha escolhido. Gostava deste choro silencioso que a protegia da chuva do dia. Gostava de se sentir refém dos seus próprios sentimentos. Gostava que a sua tez ficasse vermelha de tanta dor expelida pelos poros.


No dia antes de ter começado esta maratona, Joana tinha dito no emprego que ia aproveitar o feriado para ir a casa dos primos, descansar no monte onde tinha brincado em pequena. Mas já sabia que não ia. Nem sequer tinha que lhes ter dado satisfações, mas só de pensar que alguém pudesse imaginar o que iria fazer, só lhe apetecia chorar ainda mais. Por isso, decidiu mentir a quem não tinha que dizer a verdade. E assim foi: na quinta feira, às 7 da tarde correu ainda até uma farmácia aberta e comprou pingos para o nariz e creme hidratante para a pele sensível. Sabia que a vermelhidão e a acidez lhe poriam a derme, a epiderme, até a carne e as veias secas, sem falar no estado em que deixaria a sua alma. A alma, essa, secaria mais tarde, iria sumindo de mansinho, de acordo com o volume de lágrimas que se soltariam dos seus sacos lacrimais. Mas sabia também que era a única forma...Preparou-se e soube que era agora ou nunca.


Há meses que quase explodia. Fingia ser dura, mas a verdade é que andava a pisar o risco. Muita emoção junta nunca tinha dado para aguentar de forma tão impávida e serena. Não dá para não deitar uma lágrima e depois esperar que corra tudo bem, que o controle tome conta de nós.. E ela sabia. Sabia, sem saber muito bem porquê que seria este o dia escolhido para começar. O dia da revolta interior, que apesar de a afligir, lhe apaziguava também o espírito e lhe dava sentido à vida. Sabia, porque quase tinha começado no mesmo dia à tarde, quando no trânsito lhe chamaram um nome:
"Irresponsável!!...", gritou um homem bem pronto e com um penteado da moda, num descapotável azul escuro. Irresponsável... Toda a tarde a maldade da palavra lhe tinha injustiçado o pensamento. Para ela, a Palavra era algo de sagrado, podia dar força mas podia igualmente espetar, podia esfaquear uma pessoa também...Pobre Joana, que desde logo se lhe tinham espelhado os olhos... Mas aguentou. Foi ainda forte e almoçou uma salada de frango, pensando na irresponsável que era em comer o coitado do bichinho e conseguiu superar ainda a irresponsabilidade, de em semana de dieta, lhe ter apetecido beber uma groselha cheia de açúcar. Mas aguentou.


Chegou a casa eram quase 8 e ele ainda não tinha aparecido. Enrolou-se numa colcha de lã cor de laranja e depois de ter aberto os estores deixou-se assim banhar pelo branco acinzentado de uma lua a caminho de cheia. Cheia de luz para lhe dar. E foi assim que começou. Imaginou-se, não só banhada pela luminosidade do astro, mas também pelo seu próprio choro. E começou. E soube-lhe bem.


Esperou que ele chegasse para o avisar. Explicou-lhe, soluçando uma estória atabalhoada que ele não percebeu. Falou em ultrapassar limites, em precisar de descarregar para só depois voltar a querer a energia da vida, em sentir a necessidade de estar sozinha, sem o estar na realidade afinal. Pediu-lhe um espaço que ele deu. Deu-o com a maior das facilidades, e ela, triste, chorou ainda mais. Acabou ele, afinal, por ir para o tal monte dos primos dela, num Alentejo próximo das memórias da cidade onde Joana ficou. A chorar.

Três dias e três noites em que não parou. De dia, no conforto da manta já molhada nos cantos enrodilhados nas suas pequenas mãos, de noite, chorava nos seus sonhos. E aí, nem mesmo os olhos fechados, a impediam de oferecer aos lençóis as gotas terapêuticas do seu triste cansaço.


Três dias e três noites. E ele que não ligou. A Joana tinha-lho pedido e ele fez-lhe a vontade. Também por isso ela chorou. Chorou tanto até já não ter mais lágrimas. E elas foram mais do que alguma vez se julgou ser humanamente possível verter. Mais de mil. Talvez 3 mil, mil por dia. Ou até o dobro, nunca se chegou a saber. O sofrimento foi tal, tão compulsivo, desesperado, que se cansou ele também.
Finalmente.

A Joana, na noite de domingo, fartou-se de estar cansada, de chorar e de sofrer. Passou ainda um noite molhada em si mesma, mas quando acordou, na 2º feira, com ele, já deitado ao seu lado, levantou-se sorridente, correu a lavar a cara e os dentes, colocou uma camada de creme hidratante e foi trabalhar como se nada se tivesse passado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

As mãos do mundo


Tenho-me nas Mãos do mundo. E gostava que ele fizesse a sesta na minha mão. Quero com tanta determinação conhecer-lhe os sonhos que imagino prendê-lo assim para nele ter tempo de viajar e o compreender melhor. Só o quero guardar uns instantes.. De mãos fechadas e bem juntas ao coração.

As minhas Mãos que são pequenas, curtinhas e esguias, como toda eu, (acho)… são proporcionais a mim mesma e proporcionastes dos melhores e inesquecíveis momentos da minha vida. São elas que me permitem fazer quase tudo o que mais amo. São um incontornável objecto vivo de trabalho e lazer. Os afazeres das minhas mãos, acabam normalmente, por contribuir para o deleite e para o ócio da minha alma. Enumero-os com um semblante de consolação e felicidade:

O acto de fazer festas, de dar mimos, de fazer massagens. Suspiro de tanto gostar. Amassar, tocar, curar o corpo e o espírito de alguém com a palma da mão aberta, com a pressão dos nós dos dedos ou com as unhas a passar pela pele bem ao de leve… Arrepiar, aliviar, transmitir energia através das Mãos. Sabe bem aos outros e especialmente a mim. Assim lhes posso oferecer Amor através do toque.

Gosto de dar te banho filho Luz, de te passar creminho, de te cortar, a ti, as mini unhas, ouvindo-te reclamar. Os teus dedinhos nos meus, a tua macieza inocente na minha suavidade de adulta. Os nossos indicadores quando se tocam em forma de ET e brincam à apanhada...

Escrevo com as minhas Mãos, ao computador de dedos espetados e com pequenas pancadas fortes, na folha de papel do bloco de notas com letras redondas e rasuradas ao sabor da inspiração. Pinto com elas. A minha tez e as minhas telas. E invento mil e uma maneiras de as empregar nos imensos brique-a-braques e peças de roupa alteradas que vou arrumando e exibindo lá por casa.

Adoro cozinhados de Mão cheia. Prezo a Mão aberta e envolta nos alimentos e especiarias. Ligo o sabor da terra ao sabor da palma e do afecto ao punhado que uso como medida.. Gosto de lhes sentir a textura e é através das mãos que lhes deposito o amor necessário ao sabor de um bom prato.

Gosto de sentir os meus dedos a controlar na mesa de mistura. Na textura do vinyl e na lisura do cd . Tocar ao de leve no botão do pitch, respirar a vibração que ecoa na sala e sentir como faz a diferença a susceptibilidade de um toque… A partilha da música que me faz sorrir de orelha a orelha. E sentir. E chorar. E dançar de olhos fechados… A mistura entre a sensibilidade musical, a prestação técnica e a vontade cabriolesca das minhas Mãos miudinhas, irrequietas e sensitivas.

Ah, gosto das minhas unhas… De as tratar e de as ver reluzentes e bem pintadas.. Coisas de mulher… A minha mania de as arranjar é tal que cria já brincadeira entre amigos e os vernizes amontoam-se em 4 caixas arrumadas na casa de banho. Quando as roía, em pequena não lhes tinha respeito mas agora, agora… são a minha perdição e prazer.

Dar-te a Mão e agarrar com o dedo mindinho o teu dedo mindinho. Fazer o pino. Lavar o cabelo em água tépida. Convosco. Mexer no barro e na areia molhada. O morno da tua pele. Jogar à sardinha e entrelaçar ao mesmo tempo e compassadamente dedos da mão direita e esquerda quando estou nervosa.Festinhas na tua nuca de bébé. Aperto, envolvo, ancoro e agarro-me a ti. Guardo com vocês, o carinho e o respeito. Afago e também afasto. Gosto de vos ter macias Mãos. A vossa pele e a vossa essência. Vou fazendo por isso… Gosto de vocês porque me dão que fazer. Gosto de vocês porque são a terminação nervosa do meu corpo e do meu sentir.